O chefe do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Marcelo Neri, disse hoje (2) que uma das principais críticas ao programa Bolsa família, de que gera o “efeito preguiça”, é desmistificado, em parte, pela pesquisa “Equidade e Eficiência da Educação: Motivações e Metas”, que o centro apresenta nesta terça-feira (3).
O estudo, feito a partir de microdados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra que o Bolsa Família “impacta pouco” sobre o trabalho em geral e sobre o trabalho infantil de maneira particular.
“Há os que criticam o Bolsa Família por ele, teoricamente, provocar o chamado efeito preguiça: a pessoa recebe os recursos do programa e não vai trabalhar. A pesquisa mostra exatamente o contrário. Essas pessoas trabalham ainda mais. Pelos dados da PNDA (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), aumentou o trabalho infantil no Brasil entre 2004 e 2005”, disse à Agência Brasil Marcelo Neri.
Na avaliação do economista, no entanto, é preciso analisar estes indicadores de forma mais cuidadosa, “até porque este aumento pode está refletindo as condições melhores do mercado de trabalho que vêm se verificando nos últimos dois anos”.
“A verdade é que os dados não nos permitem rejeitar a hipótese de que o Bolsa Família não esteja diminuindo e, talvez, até aumentando o trabalho infantil. É um resultado até certo ponto surpreendente. É preciso olhar esta constatação com uma certa cautela. Quando a gente faz um experimento, comparando pessoas em igualdade de condições, com e sem o Bolsa Família, a propensão ao trabalho deste adolescente é maior com o Bolsa Família”, explicou.
O estudo desenvolvido pela FGV indica que o número de matrículas na faixa etária de sete a 15 anos (exatamente a que é beneficiada pela condicionalidade do programa), o índice de matrícula é três pontos percentuais superior à faixa que vai até os 17 anos.
“Isto não é um efeito muito grande, uma alteração de 92% para 95%. Ou seja, a evasão escolar cai de 8% para 5%. Neste sentido o Bolsa Família chove um pouco no molhado”, ressaltou.
Para Néri, no entanto, a influência maior é na redução do número de faltas às aulas. Neste caso há uma mudança substancial entre os pobres com e sem bolsa. “O índice de faltas por aluno cai de 32% para 29% - acima dos 15% permitidos. Aí há um efeito mais importante: são três pontos de porcentagem, que na verdade correspondem a uma mudança de 10% sobre a base”.
Néri informou que o Centro de Políticas Sociais da FGV disponibilizará um site com um amplo banco de dados que permitirá a cada um responder suas próprias perguntas relativas ao por que as pessoas evadem da escola, o tempo de permanência na escola, retornos da educação, que podem ser cruzados com um amplo leque de atributos sócio-demográficos como sexo, renda, etc.
O site apresenta um ranking comparando os atributos educacionais entre diferentes estados. Também em inglês, o sítio contém diversos artigos, vídeos de seminários e debates de especialistas do tema, assim como um fórum de discussão. (AB)